
O Instituto Veritá, que acumula várias condenações na Justiça Eleitoral e teve pesquisas proibidas em 14 dos 27 estados, registrou nessa sexta-feira, 28, mais um levantamento para avaliar a intenção de voto para o Governo do Maranhão nas eleições de 2026. No entanto, o método escolhido para coletar opiniões será por meio de ligações telefônicas, uma abordagem criticada pela Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (Abep) desde 2018, que desaconselha o uso desse mecanismo para pesquisas de intenção de voto eleitoral.
Segundo a Abep, essas pesquisas “nem sempre retratam com fidelidade a percepção real da maioria dos eleitores, em função da falta de listagens exaustivas dos números de telefone, principalmente os dos celulares”. A posição da entidade foi endossada pelo diretor geral do Datafolha, Mauro Paulino, que vê ‘muitas limitações‘ para retratar disputa eleitoral. “A principal é a impossibilidade de o entrevistador apresentar um cartão de resposta com o cardápio de candidatos aos entrevistados. O cartão é um instrumento básico. Sem isso, não dá para estimular adequadamente”, disse em entrevista ao Valor durante reportagem sobre o assunto.
Além de utilizar um método não recomendado pela associação do setor, uma análise realizada pelo blog do Isaias Rocha, com dados disponíveis no PesqEle – Sistema de Registro de Pesquisas Eleitorais do TSE, identificou pelo menos três possíveis irregularidades no estudo, e pelo menos uma delas seria suficiente para justificar a suspensão imediata da divulgação pela Justiça Eleitoral.

De acordo com as informações obtidas, a principal falha identificada foi a divergência entre o objeto registrado da pesquisa, que previa apenas a intenção de voto para governador e senador, e o conteúdo efetivamente aplicado aos entrevistados. O questionário incluiu perguntas sobre intenção de votos para os outros cargos eletivos como presidente da República, sem que essas informações tivessem sido declaradas no registro oficial, como exige a legislação eleitoral. Eis a íntegra do questionário (PDF – 2 MB)

Outro ponto detectado foi o confronto entre os candidatos. No estudo, embora o questionário inclua oito candidatos no cenário estimulado do primeiro turno, o embate no segundo turno abrange apenas combinações entre Eduardo Braide, Felipe Camarão e Orleans Brandão. Esse tipo específico de irregularidade levou à suspensão da pesquisa Quaest na semana passada.
Além disso, o Veritá reduziu artificialmente a proporção de eleitores com ensino superior no estado para 10,3% de sua amostra, enquanto a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD) de 2025 indica que 11,1% da população possui esse grau de instrução, e o cadastro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aponta um percentual ainda menor, de 6,07%.
A distorção do instituto também incluiu 32,7% de eleitores com ensino médio completo, contra uma média real de 26,85% no cadastro do TSE. O Veritá diz ainda que 27,1% do eleitorado maranhense tem ensino fundamental incompleto, mas o cadastro do TSE aponta um percentual menor, de 20,5%.

A pesquisa também indicou 28,3% de eleitores na faixa de 2 a 5 salários-mínimos, bem maior que os 24,7% apurado por outros institutos. Além das distorções socioeconômicas, o instituto também não proporciona transparência suficiente sobre os métodos de geração, seleção e abordagem dos contatos telefônicos utilizados em suas pesquisas.
Todas essas inconsistências levaram à suspensão dos estudos nos estados do Piauí, Amazonas e Pernambuco. No Tocantins, o TRE considerou a falta de clareza na indicação da fonte pública de dados como um “vício substancial, porque obstaculiza a fiscalização externa (controle social) e ofende o dever de transparência“.

Autofinanciamento gera suspeita
Em julho, o Veritá chegou a ser apontado como um dos institutos que estariam contornando regras em pesquisas autofinanciadas. Na ocasião, a reportagem da Folha revelou que a empresa registrou 93 pesquisas utilizando recursos próprios neste ano, acumulando um gasto total de R$ 10,8 milhões. Esse valor supera tanto o lucro quanto a receita bruta declarados pelo instituto no ano anterior, que foram de R$ 927 mil e R$ 3,8 milhões, respectivamente.
Na época, o Veritá disse que os recursos provêm da estrutura operacional consolidada pela empresa, acrescentando possuir “contratos privados, projetos em andamento e equipes permanentes“. E que, em períodos de disponibilidade, “essa capacidade é utilizada para a realização de pesquisas por iniciativa própria, prática legítima, transparente e compatível com a legislação vigente”. Ainda segundo a empresa, os valores declarados correspondem aos de mercado, mas o custo operacional interno é significativamente inferior.
Dados da pesquisa
A pesquisa autofinanciada foi registrada nessa sexta-feira, 28, e começou a ser aplicada neste sábado, 29, com coleta prevista até a próxima terça-feira, 1º de setembro, e divulgação autorizada na quinta-feira, 3. O estudo prevê a realização de 1.525 entrevistas aplicadas mediante questionário eletrônico estruturado.
A margem de erro estimada é de 2,5 pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. A pesquisa está registrada com o código MA-01912/2026. O estatístico responsável informado é Guilherme Alvarenga Laia, registrado no CONRE sob o número 10699.
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